Polêmicas Vampire

As polêmicas de Vampire V5

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Conheça as polêmicas que fizeram com que a Paradox Interactive passasse a licença da publicação de Vampire V5 para a Modiphius!

O mês de Agosto de 2018 prometia. Dois grandes blockbusters do mundo dos RPG’s lançariam suas novas versões em um ínfimo intervalo de dias. De um lado, a poderosíssima White Wolf apresentaria Vampire V5, com novas mecânicas que prometiam reduzir muitos dos problemas conhecidos dos jogadores.
Do outro lado, Pathfinder Playtest, um protótipo de Pathfinder 2ª Edição que seria comercializado. Além das profundas mudanças mecânicas (que muitos assemelharam a D&D 4ª Edição, a pior versão de D&D na opinião de muitos), diversas atualizações seriam introduzidas no sistema conforme o jogo fosse sendo testado (o que inutilizaria, de certa forma, o livro físico).

Lendo essa introdução, é um tanto quanto fácil deduzir qual seria o sistema mais polêmico entre essas duas opções, certo?

Se você pensou em Pathfinder Playtest…bãm…resposta errada!

Isso porquê a White Wolf tomou diversas decisões questionáveis durante o desenvolvimento de Vampire V5. A empresa (uma subsidiária da Paradox Interactive, empresa de jogos eletrônicos que a adquiriu em 2015) possuía total independência em relação a sua proprietária, mas os problemas foram tantos que a Paradox Interactive se viu obrigada a remover o poder da White Wolf. A partir de agora, a Modiphus Entertainment será a responsável pelas publicações de toda a linha de produtos de Vampire, enquanto que a White Wolf ficará responsável apenas pelo gerenciamento da marca e garantindo que todo o novo conteúdo criado se encaixe na temática de Vampire.

Para aqueles que ficaram cientes da polêmica presente no livro Camarilla, saiba que ele é apenas a ponta de um grande e pesado iceberg. Traremos para vocês todas as polêmicas em que a White Wolf se viu envolvida desde então!

Antes, alguns disclaimers muito importantes:

  • Alguns dos assuntos abordados entram no campo político e seus destrinchamentos. Não nos posicionaremos defendendo este ou aquele. Todo e qualquer jogador, independente de ideologia, raça, credo ou sexualidade são bem-vindos aqui, e o RPG é o elo que nos une.
  • Diferente de nossos demais artigos, não expressaremos nossa opinião em nenhum momento nesta postagem. Aqueles que acreditam que tudo não passa de “frescura”, “RPG é algo ficcional” ou “a patrulha do politicamente correto chegou nos RPGs” possuem sua parcela de razão em alguns pontos, mas aqueles que vieram ou vierem a se sentir ofendidos também possuem excelentes motivos para tal. Nós apenas noticiaremos os fatos, uma vez que esse tipo de conteúdo é raro no Brasil.
  • Alguns dos temas abordados podem ser considerados sensíveis para alguns grupos de pessoas. Embora nós tenhamos censurado algumas palavras, nossa recomendação é: se você se sente desconfortável com facilidade, nós recomendamos que pare a leitura por aqui.
  • Como nós não entendemos bulhufas de Vampire, nós pela primeira vez contamos com a colaboração de nosso amigo César Cremasco para revisar a postagem e manter tudo redondinho para quem entende (ou não) de Vampire!

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Códigos de Supremacia Branca nos dados

O documento contendo a fase pré-Alfa de Vampire V5 foi disponibilizado de forma restrita em uma convenção alemã em Julho de 2017. Embora fosse apenas um protótipo, já havia algumas polêmicas presente nas páginas do livreto: na página 5 do livro é realizada uma simulação de jogada de dados para que os jogadores entendam a mecânica do jogo. Neste exemplo, uma das combinações de quatro dados utilizadas são os números 1, 4, 8 e 8.

Se você não entendeu o significado destes quatro dígitos, bem-vindo ao clube.

O código 1488 é a combinação de outros dois códigos:

  • 14: No contexto do código 1488, 14 é o número de palavras da seguinte frase: “We must secure the existence of our people and a future for White Children”. Traduzindo a frase de forma livre, ela ficaria como “Devemos assegurar a existência de nosso povo e um futuro para as Crianças Brancas”. Algumas pessoas creditam a frase a George Lincoln Rockweel (criador do grupo nazista americano), enquanto outras dão o crédito para David Lane, criador da organização separatista The Order.
  • 88: No contexto do código 1488, convertendo-se letra em número (A=1, B=2, C=3…), os números 88 se tornariam HH, o que significaria “Heil Hitler”. O número 88 também faz referência ao manifesto intitulado 88 Precepts, também criado por David Lane.
  • Em suma, esse código realça o orgulho e a supremacia branca.

É importante ressaltar que tais códigos (embora já estivessem expostos na versão pré-alfa) só foram identificados por leitores na versão alfa do livro (que foi disponibilizada gratuitamente em formato .PDF). O exemplo foi removido e a White Wolf afirmou que “a pessoa que escreveu este trecho desconhecia a simbologia do número 1488”.

Imagem do código no Alpha Playtest.
Créditos: White Wolf

Os Brujah

Ainda falando sobre o pré-alfa, o clã Brujah possuía uma compulsão intitulada Triggered, que faz com que seu personagem aja com uma fúria extrovertida. O termo triggered se refere ao momento em que um gatilho desencadeia um estímulo psicológico traumático vivenciado anteriormente.

O problema é que o clã Brujah possui membros de extrema-direita anti-estabilishment (contra os padrões estabelecidos por aqueles que detém poder), com alguns comportamentos que se assemelham a neo-nazistas. Para muitos, o termo triggered foi utilizado de forma pejorativa, uma vez que esse grupo de pessoas se acham superiores às demais (como se a pessoa que viesse a ficar triggered fosse um ser fraco).

Ainda, muitas pessoas comentaram que a utilização da palavra triggered foi um dog whistle (conjunto de palavras que o público geral entende, mas que apenas um grupo seleto de pessoas consegue interpretar o real sentido da palavra – basicamente uma codificação) para que apenas grupos de extrema-direita entendam o real contexto.

A White Wolf informou que “esse é um uso comum do termo nos dias de hoje. Não tivemos a intenção de desrespeitar ninguém”.

Abuso?

Não se esqueça: ainda estamos falando do pré-alfa!

Uma das personagens disponíveis para que os jogadores controlasse se chamava Amelina. A personagem possuía uma peculiaridade um tanto quanto bizarra: obsessão por crianças e jovens que se tornavam Vampiros (Kindred), se alimentando deles.

Todavia, o ato de drenar sangue pode ser considerado como um ato sexual. E pelo fato da personagem se alimentar apenas de crianças e adolescentes, isso poderia se caracterizar como abuso de menores no Mundo das Trevas.

A White Wolf informou que a personagem possuía restrições em sua alimentação que a forçam a se alimentar de jovens.

Estilo de Arte

Se teve um ponto onde Vampire V5 inovou, certamente foi na direção de arte.

Isso porquê a 5ª Edição de Vampire abandonou os desenhos à mão e ilustrações digitais presentes em todos os livros de RPG. Em seu lugar, a White Wolf optou por utilizar fotografias reais. Pessoas, prédios e até mesmo documentos foram fotografados para dar um tom mais realista e macabro ao livro.

A ilustração do livro foi demonstrada no anúncio oficial do novo Vampire e dividiu a opinião do público: enquanto alguns adoraram pelo fato de facilitar na imersão, outros acharam que o livro assemelhava-se à revista de moda Vogue.

Arte em Vampire V5

Acusações de Nazismo

A situação da White Wolf começava a ficar ruim e piorou radicalmente quando o blog Dogs with Dice publicou um artigo gigantesco declarando que a empresa estaria “explorando temas de extremismo político e ideologias fascistas em uma sociedade moderna”. E surpreendentemente, a postagem foi apagada alguns dias após sua publicação sem nenhum motivo aparente.

Juntando-se tudo o que ocorreu no pré-alfa e a postagem do Blog, a White Wolf se viu obrigada a emitir uma nota oficial sobre o caso. A empresa se posicionou da seguinte forma:

“Uma pessoa recentemente postou uma opinião de que a White Wolf está deliberadamente dando suporte a uma agenda fascista. Nada poderia estar mais longe da verdade. Nós brevemente mencionamos o crescimento global da extrema-direita em Vampire V5, como um alerta sobre essas terríveis ideologias e o dano que elas podem causar. Nossa intenção com o Mundo das Trevas é sempre encorajar o pensamento crítico sobre o mundo de hoje, e nós utilizamos a escuridão e, as vezes, tópicos sensíveis para realizar isso. O artigo e sua conclusão não tem conexão para com a verdade do porquê nós realizamos tais escolhas. Ele é uma fabricação de disparates de ideias, imaginado para encaixar-se junto a um propósito sinistro que não existe. Como nós acreditamos que diálogo é a melhor maneira para nos comunicarmos, White Wolf convidou o autor deste artigo para discutir suas preocupações diretamente conosco em vez de ficar imaginando como nossas opiniões são.”

Você pode ler o artigo do blog Dog With Dice neste link do WebArchive. E você pode ler mais sobre o final do Dog With Dice neste link.

Regras profundas demais…

Depois de todas essas polêmicas, finalmente Vampire V5 foi lançado. E não demorou muito para que pipocasse no Twitter uma polêmica do livro.

Isso porque na página 310 há uma regra para manipular alguém a ir “mais longe do que ela queira, sexualmente falando”. Para isso, você deve realizar um teste de Carisma ou Manipulação + Performance vs Compostura + Intuição de seu alvo. O intuito dessa regra é permitir que o Vampiro faça um laço de sangue (Blood Bond) com outro, mesmo que o segundo vampiro não queira.

Conteúdo presenta na página 310.
Créditos: White Wolf

Fraqueza em Anarch

Os suplementos Anarch e Camarilla foram lançados na primeira semana de Novembro de 2018 e expõem o principal problema do Mundo das Trevas: levar para um mundo ficcional o nosso mundo real. Não à toa, o conjunto de livros foi a gota d’água para a Paradox Interactive, que determinou o fim da independência da equipe da White Wolf e a transferência das publicações para a Modiphius.

No livro Anarch, é explicado que, embora haja uma superpopulação nos domínios do clã, a rotatividade é muito alta por conta da altíssima taxa de suicídio entre os novos Vampiros, principalmente nos primeiros meses em sua nova vida. É dito que “embora isso seja um problema que deveria ser solucionado, eu penso que isso nos torna mais fortes”. Algumas pessoas comentaram que o livro estaria sugerindo que as pessoas que se suicidam são “fracas”.

A Chechênia

A infeliz cereja do bolo foi colocada no livro Camarilla, devido a forma como o livro retratou a situação da República da Chechênia.

Para quem não tem conhecimento sobre o que ocorre no local, a Chechênia era um território russo até o fim da União Soviética. Após o final da Guerra Fria, líderes separatistas da Chechênia tomaram o governo e se auto-proclamaram uma república (não reconhecida por nenhum país). Houveram duas guerras desde então, com estimativa de mais de 100.000 mortos. Em 2007, um novo governo foi implantado com o auxílio do governo russo. O novo governante, Raznan Kadyrov, prometia trazer estabilidade à região. Prometia…

Em 2017, foi descoberto que haviam campos de concentração destinados para pessoas pertencentes ao grupo LGBTQ+. Nessa região ainda há o famoso Crime de Honra (deve-se lembrar que 95% da população da Chechênia é islâmica e estritamente conservadora), e fazer parte da comunidade LGBTQ+ é considerado tal crime para os governantes locais.

Mais de 100 pessoas já haviam sido enviadas ao local segundo ONG’s internacionais e o governo local é complacente com os casos de tortura ocorridos em tais campos. O porta-voz local Alvi Karimov informou que “você não pode prender ou repreender pessoas que não existam na república. Se existissem, os policiais não deveriam se preocupar com eles, pois as próprias famílias se comprometeriam a enviá-los a um lugar de onde não seria possível retornar“. E esse fato tem relação direta com a polêmica.

O trecho do livro Camarilla (p.68) dizia que “A recorrente controvérsia a respeito da perseguição a homossexuais ocorrida no território da Chechênia era uma inteligente manipulação da mídia para se manter o foco na Sharia (livro de leis islâmicas), com intuito de ocultar o que a Chechênia se tornou”: uma autocracia altamente fascista e comandado por grandes vampiros.

Notando o “pouco caso” feito com uma grave violação dos direitos humanos, a White Wolf tenta amenizar no parágrafo seguinte, dizendo “Infelizmente não há nada que nós possamos fazer para nossos irmãos e irmãs da Chechênia que sofrem com isso. Interferir não é recomendado neste ponto, mas Vampiros (e até mesmo humanos) deveriam buscar asilo em locais sob o nosso controle”.

Créditos: White Wolf

A White Wolf reconhece que “perdeu a mão” ao falar da Chechênia, “tratando um acontecimento contínuo de forma bruta e desrespeitosa”. O trecho da Chechênia foi removido dos livros físicos – que sofreram atraso de três semanas devido a essa correção. Ainda, vale destacar que a White Wolf deixou o campo de comentários aberto ao público e muitos vieram defender a editora neste caso em específico.

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2 comentários

  1. Mimimi é o termo que realmente deve se aplicar a isso tudo. Censurar obra de ficção é coisa de gente autoritária. Não se resolve problemas sociais jogando toda e qualquer discussão sobre, para debaixo do tapete, em nome do “politicamente correto”. São nos contrastes em obras de FICÇÃO, que se notam as arestas de nossa sociedade e se reflete em como apara-las, não censurando o debate antes que ele ocorra. Se tudo isso que foi reportado como “sensível” tivessem sido listados nas capas de jornais, como “notícia” real, ok, seria outra coisa, pois não é o papel do jornal abrir debates (embora a maioria faça isso todos os dias, e há quem ache lindo, quando estão de acordo), e sim relatar fatos. Mas numa obra de ficção? A sociedade está tão doente e distópica, que se um dia lançarem um livro de RPG, de FANTASIA, de novo, FAN-TA-SI-A, criando um mundo onde a Terra é o centro do sistema, não o Sol… pronto. A militância vai queimar o livro nas prateleiras, rotular de negacionista, terra-planista, etc. E nenhum dos militantes vão ter algum resquício de bom senso para entender que se trata de uma obra de ficção e que o ato de proibir uma obra não é libertação, mas a volta da idade das trevas. (E provavelmente teremos um novo post aqui, relatando os absurdos ofensivos dos supostos “terra-planistas”). Lamentável… realmente a white-wolf previu a era do sangue-fraco…

    E só para contexto e exemplo… prevejo que em alguns anos, a empresa terá que mudar seu nome de “White-Wolf” para apenas “Wolf”, por “deduzirem” que o “White” faz referência a supremacistas brancos, e mais alguns anos depois.. Perderá seu nome, pois se chamar “Wolf”, será considerado crime de apropriação cultural de uma espécie em vias de extinção. (hoje é ironia, mas não se surpreenda quando ler uma manchete dessas no futuro, vc tb será responsável por ela, pense nisso).

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